21/12/14     Bom dia !
Hospital Central do Exército
Hospital Central do Exército

Berço do Ensino Médico

O Hospital Central do Exército, historicamente o mesmo instalado em fins de l768, no alto do Morro do Castelo, no ex-Colégio dos Jesuítas, representa, para a história da Medicina Brasileira, um acervo dos mais significativos. Um trabalho de 228 (duzentos e vinte e oito ) anos de prática profissional acompanhando o progresso da ciência médica e dele participando em todos os momentos, testemunha, sem dúvida, a capacidade da Medicina Militar que, na paz e na guerra, comprovou com eficiência e senso humanitário. Atuações memoráveis de ilustres profissionais e fatos significativos compõem o panorama histórico da instituição.

O ensino médico no Rio de Janeiro teve lá suas origens, como comprovam inúmeros historiadores. Foi o Ato de 2 de abril de 1808, quando o Príncipe Regente D. João, recém chegado ao Brasil, nomeia o cirurgião da Armada, Joaquim da Rocha Mazarém, para ministrar aulas de "ligaduras, cortes e operações de cirurgia", como lente de Anatomia no Hospital Militar do Morro do Castelo. Foi o frei Custódio de Campos Oliveira, cirurgião da Real Câmara e freire conventual professo da Ordem de Cristo, nomeado para o cargo de Cirurgião-mor dos Reais Exércitos e Armada de Portugal, a 9 de fevereiro de 1808, que criou a Escola Anatômica, Cirúrgica e Médica do Rio de janeiro. Por motivo da ausência do Dr. Mazarém, foi nomeado, seu substituto, o Cirurgião-mor Joaquim José Marques; seguiram-se o cirurgião José Lopes de Magalhães, para professor de Terapêutica Cirúrgica e Particular, e o Dr. José Maria Bontempo para ministrar Medicina Teórica e Prática, ensinando os princípios elementares da matéria médica e farmacêutica. O Príncipe D. João criara, em Salvador, a primeira Escola Médica (1808), também em Hospital Militar.

A Junta de Direção Médica, Cirúrgica e Administrativa do então Hospital Militar da Guarnição da Corte, hoje Hospital Central do Exército, criada em 1812, coube ao frei Custódio de Campos Oliveira, com "a intenção de estabelecer um regular e bem entendido sistema de estudos médico-cirúrgico para melhor instrução daqueles que se dedicavam a ciência tão importante e útil para o bem do estado e da humanidade"

Em 1813, com os novos estatutos, a Escola passou a receber a designação de Academia Médico-Cirúrgica e, em 1832, recebeu o nome de Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Segundo cita o historiador Dr. Luiz de Castro Souza, em seu trabalho "Medicina Militar Brasileira; nomes marcantes e fatos notáveis", publicado na "Revista Brasileira de Medicina", "antes da criação dessas duas escolas Médicas em nosso País, a história registra os cursos de cirurgia mantidos nos Hospitais Militares e regidos pelos cirurgiões militares, como é exemplo os do Hospital Real Militar de Vila Rica, em 1801, e do Hospital Real Militar de São Paulo, em 1803".

Grandes acontecimentos marcaram a vida médica do Hospital Central do Exército. O atendimento ao grande número de baixados vindo do teatro de operações no Paraguai, e registrado pelo cirurgião militar Dr. Augusto Cândido Fortes de Bustamante Sá, que foi responsável durante cinco anos pela Seção Cirúrgica do Hospital, em sua magistral obra "Sumário dos fatos mais importantes de Clínica Cirúrgica observados no Hospital Militar da Guarnição da Corte, durante os anos de 1865 a 1870", é a prova cabal do alto nível da medicina ali praticada. Este precioso livro, segundo Dr. Luiz de Castro Souza, pode ser considerado um cimélio, pela beleza e raridade, e que honra a arte gráfica do Brasil. Diz ainda o ilustre historiador:

"... com 228 páginas, vii, 26 estampas representando 49 ilustrações, sendo editado no Rio de Janeiro, na Tipografia Perseverança, 1872. O autor Dr. Augusto Cândido Fortes de Bustamante Sá, médico militar e cirurgião do Hospital da Santa Casa da Misericórdia, apresentava os casos que atendeu, no período de 5 anos, de pacientes vindos do teatro de operações do Paraguai. Os desenhos e litografias são do consagrado pintor brasileiro Agostinho da Mota, professor da Academia Imperial de Belas Artes. A impressão da litografia coube à firma Rensburg. O Dr. Bustamante Sá, entre as mais variadas intervenções constantes de seu precioso livro, destaca, sem dúvidas, a maior delas todas. Trata-se da ligadura da ilíaca primitiva em um soldado que apresentava aneurisma traumático da artéria ilíaca externa direita, estendendo-se à femural. O paciente, Voluntário da Pátria, de nome Francisco Gomes de Mendonça, natural de Pernambuco, com 39 anos, foi internado no Hospital Militar do Morro do Castelo, a 13 de novembro de 1868. A intervenção se realizou às 10 horas da manhã, em 25 de novembro do referido ano. A cura foi completa e Bustamante Sá foi o sexto cirurgião do mundo a praticar tal intervenção com êxito completo".

Outro fato que devemos ressaltar, diz o mesmo autor, "é o valor que ele dá ao tratamento pré e pós-operatório. Talvez tenha sido o primeiro cirurgião brasileiro a tratar do assunto de tanta magnitude para o êxito das intervenções". Eventos de importância também foram ali realizados e que ilustram os anais da medicina brasileira, como a aplicação da primeira narcose por éter no Brasil, em 1847, realizada pelo Dr. Roberto Haddock Lobo, médico militar. O professor Dr. Manuel Feliciano Pereira de Carvalho, em 1848, realizou a primeira anestesia com o clorofôrmio, em nosso meio. Devemos considerar também o notável trabalho desenvolvido pelo Dr. Antônio Caetano de Almeida, nas enfermarias do Hospital do Andaraí, onde apresentou mais de 700 (setecentos) casos de cirurgia, com baixo índice de mortalidade.

Hoje em dia, o Hospital Central do Exército continua a exercer o seu relevante papel no meio militar. Relembrando estes fatos e nomes queremos deixar marcada, como outros já o fizeram, a importância de todo este trabalho na história da instituição. Que as atividades profissionais dos que lá serviram, nos seus duzentos e vinte e oito anos, venham encher de orgulho os que hoje lá trabalham.

Que as autoridades militares reconheçam a bissecular instituição médica, orgulho da Medicina Militar, em sua data primeira, 1768, para glorificar àqueles que lá passaram benfazendo, através do trabalho técnico, do ensino e nas atitudes do pioneirismo médico

Que se faça e diga, reconhecendo e respeitando a sua idade provecta, como o Exmo Sr Ministro da Guerra, em seu relatório, de 1898, ao fazer referência ao Hospital, dizia:

"O Hospital Central do Exército, outrora Hospital Militar do Castelo ..."( Grifo do autor).

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